€
Custo de vida na zona do euro

Como a Alta de Juros do Fed Afeta a Cotação do Euro

Por Willian Gonçalves Rios - Economista Chefe2 min de leitura
Edifício do Banco Central dos Estados Unidos em Washington com bandeiras americanas na fachada.

Descubra o mecanismo que conecta as decisões de juros do Federal Reserve ao valor do euro perante o dólar e entenda o impacto direto na cotação para brasileiros.

Quem planeja uma viagem para a Europa ou faz operações de câmbio internacional costuma acompanhar de perto as decisões do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos. Quando a autoridade monetária americana decide elevar a taxa básica de juros, o impacto vai muito além das fronteiras americanas e atinge em cheio a cotação da moeda europeia. A elevação dos juros em solo americano altera a atratividade dos investimentos globais e desencadeia um forte movimento de redistribuição de capital no mercado financeiro global.

A resposta direta para o efeito de uma alta de juros do Fed no euro é a tendência de desvalorização da moeda europeia em relação ao dólar americano. Quando o banco central americano encarece o custo do dinheiro, os títulos do Tesouro dos Estados Unidos passam a oferecer rendimentos mais elevados com baixo risco. Isso atrai investidores institucionais do mundo inteiro, que vendem ativos cotados em euro para comprar dólares e aplicar na economia americana. A menor procura pelo euro no mercado internacional reduz a cotação da moeda frente ao dólar. Para entender o peso da moeda americana na formação de preços globais, leia sobre por que o dólar afeta o preço do euro.

O mecanismo por trás dessa dinâmica baseia-se na diferença entre os rendimentos pagos pela renda fixa de cada região, relação conhecida no mercado como diferencial de juros. Se os Estados Unidos oferecem retornos maiores do que os títulos soberanos emitidos pelos países da zona do euro, o capital estrangeiro migra das praças europeias em busca de maior rentabilidade. Essa transferência constante de divisas aumenta a oferta de euros e a procura por dólares, enfraquecendo o valor de mercado da moeda europeia em negociações globais.

Para o brasileiro, esse movimento reflete na cotação final em reais de forma indireta. Como o real também reage às variações de risco e às taxas de juros americanas, o preço do euro no Brasil reflete o rebalanceamento simultâneo entre as três moedas. O acompanhamento das cotações de conversão no mercado brasileiro deve ser feito por meio da taxa PTAX, divulgada diariamente pelo Banco Central do Brasil. O valor praticado por bancos e corretoras ao vender euro para viajantes adiciona a essa taxa de referência o spread cambial da instituição e a cobrança do IOF. Para compreender essa triangulação entre moedas, veja a análise sobre como dólar e euro hoje se relacionam.

A intensidade dessa oscilação depende do momento econômico da zona do euro e do tom dos comunicados do Federal Reserve. Quando o mercado financeiro antecipa uma alta de juros, as cotações costumam se ajustar antes do anúncio oficial. Surpresas nas decisões ou sinalizações de novos aumentos aceleram a depreciação do euro, exigindo planejamento de quem precisa adquirir divisas para pagamentos na Europa.

O fluxo de capital global e a atratividade dos títulos americanos

O mercado financeiro internacional opera em busca constante da melhor relação entre risco e retorno. Quando o Federal Reserve eleva a taxa de juros nos Estados Unidos, os títulos da dívida pública americana passam a pagar remunerações mais atraentes. Por serem considerados os ativos de menor risco de crédito do planeta, esses papéis captam um volume expressivo de recursos que antes estavam aplicados em outras economias, incluindo os países da zona do euro.

Para realizar essa migração de investimentos, os grandes fundos e gestores de patrimônio precisam vender suas posições em ativos europeus cotados em euro e convertê-las em dólares americanos. Essa liquidação em massa de contratos amplia a oferta de euros no mercado cambial ao mesmo tempo em que eleva a procura por dólares. Com mais moeda europeia disponível do que compradores dispostos a adquirir a divisa, o preço do euro em relação ao dólar cai. Esse fluxo de capital em direção à segurança e ao rendimento dos Estados Unidos enfraquece o euro perante as principais moedas do mundo.

A reação do Banco Central Europeu e o diferencial de juros

A desvalorização do euro causada pela alta de juros do Fed coloca o Banco Central Europeu em uma posição delicada. Se a autoridade monetária da zona do euro mantiver suas taxas de juros inalteradas ou as elevar em um ritmo mais lento do que o americano, o diferencial de juros entre as duas regiões se amplia. Essa lacuna de rentabilidade desestimula a manutenção de capital na Europa, mantendo uma pressão vendedora contínua sobre a divisa comunitária.

Para conter a depreciação acentuada do euro e combater a inflação, a autoridade monetária europeia pode ser induzida a também subir suas taxas de juros. Contudo, as decisões europeias dependem das condições econômicas heterogêneas dos países membros do bloco. Se a economia europeia apresentar fraco crescimento, o aperto monetário torna-se mais difícil de ser executado. O impacto dessas medidas pode ser avaliado entendendo como a decisão de juros do BCE afeta a moeda. O descompasso entre as ações do Fed e do BCE determina o tempo em que o euro permanecerá pressionado.

O impacto na conversão do euro para o real brasileiro

Para quem reside no Brasil e necessita comprar euro para viagens, estudos ou negócios, a alta de juros nos Estados Unidos gera efeitos multiplicadores. O fortalecimento global do dólar costuma retirar capital de países emergentes, o que tende a desvalorizar o real brasileiro perante a moeda americana. Como a precificação do euro em reais depende da triangulação cambial entre o par euro-dólar e o par dólar-real, o resultado final na cotação para o consumidor brasileiro oscila segundo o equilíbrio desses dois movimentos.

Quando a depreciação do real frente ao dólar é mais intensa do que a queda do euro frente ao dólar, o euro pode encarecer no mercado brasileiro mesmo estando fraco perante o dólar no cenário internacional. As instituições financeiras autorizadas a operar câmbio no Brasil utilizam a PTAX do Banco Central do Brasil como referência para suas operações. Sobre essa cotação, incidem o spread cambial do banco ou corretora e a cobrança do IOF. A consulta aos registros de compras de moeda e remessas efetuadas no seu CPF pode ser realizada no sistema Registrato, do Banco Central.

A inflação importada e os custos da energia na Europa

A queda do valor do euro provocada pela elevação dos juros do Fed não afeta apenas os investidores e o mercado financeiro, mas atinge diretamente os preços de produtos e serviços consumidos dentro da zona do euro. A maior parte das commodities globais, incluindo petróleo, gás natural e matérias-primas agrícolas, é negociada internacionalmente e cotada em dólares americanos. Com a moeda europeia desvalorizada frente ao dólar, a compra desses insumos torna-se substancialmente mais cara para as empresas europeias.

Esse fenômeno, conhecido como inflação importada, encarece os custos de produção na indústria e eleva as tarifas de energia e transporte para os moradores da Europa. Quem viaja para países da zona do euro em momentos de euro enfraquecido perante o dólar pode encontrar custos locais mais altos em hotéis, transporte e restaurantes devido ao encarecimento acumulado no continente. Além da taxa de câmbio na conversão do real, o orçamento da viagem precisa considerar a variação do custo de vida no destino europeu.

Imagens

A collection of different international currency notes, including US Dollar, Euro, and Brazilian Real, on a white background.
Foto: cottonbro studio no Pexels
Assuntos:fed-juros-eurojuros-nos-euacotacao-do-eurobanco-centralparidade-euro-dolarmercado-de-cambio

Perguntas frequentes

Uma alta de juros nos Estados Unidos sempre desvaloriza o euro?

A tendência histórica é de enfraquecimento do euro frente ao dólar devido à migração de capital para títulos americanos. Contudo, se a economia europeia estiver em forte expansão e o Banco Central Europeu sinalizar aumentos ainda maiores de juros, o impacto do Fed pode ser amenizado.

Como consultar a taxa de câmbio oficial do euro no Brasil?

A taxa de referência oficial do mercado brasileiro é a PTAX, apurada e divulgada diariamente pelo Banco Central do Brasil. Os valores de fechamento e o histórico de cotações podem ser consultados diretamente no portal oficial do Banco Central.

O aumento dos juros pelo Fed deixa as viagens para a Europa mais baratas?

Nem sempre. Embora o euro perca valor frente ao dólar, o real brasileiro também costuma se desvalorizar perante a moeda americana quando os juros sobem nos Estados Unidos. O custo final em reais depende de qual das moedas sofreu maior variação no período.

Onde verificar operações de câmbio e transferências feitas no meu CPF?

O histórico de operações de câmbio, remessas internacionais e contas em moeda estrangeira pode ser consultado no sistema Registrato, gerido pelo Banco Central do Brasil. Para verificar a situação fiscal de bens no exterior, o canal indicado é o e-CAC da Receita Federal.

A decisão de juros do Fed altera o valor das compras no cartão na Europa?

Sim. A oscilação cambial provocada pelas decisões do Fed altera as taxas de conversão aplicadas pelos emissores de cartão. Sobre o valor convertido, incidem ainda o spread cambial praticado pela instituição financeira e a alíquota do IOF.

Sobre quem escreveu

WG

Willian Gonçalves Rios - Economista Chefe

Redação

A redação do Eur Hoje analisa tendências do mercado de euro, dolar e outras moedas.

Continue lendo